Sala Pierre Boulez

Pierre Boulez Saal

até 682 lugares, dependendo da configuração

Inauguração: 4 de março de 2017
Local: Französischen Straße 33D, Mitte, Berlim, Alemanha
Projeto: Frank Gehry

A sala ocupa um prédio anexo da Ópera Estatal de Berlim, construído em 1951. E é a sede da Academia Internacional Barenboim-Said, fundação derivada da formação da Orquestra Divan. Para angariar os 32 milhões de Euros necessários à adaptação do antigo espaço de ensaios e administração, Barenboim atuou junto à iniciativa privada, conseguindo atingir um terço do valor, e o restante foi bancado com recursos federais.

Na inauguração, Barenboim deu um concerto com a Orquestra Divan, a soprano Anna Prohaska e o clarinetista Jörg Widmann. A sala é em forma elíptica-oval, e se adapta a diversas formações, do recital de piano à pequena orquestra, aumentando ou diminuindo a capacidade de público, que pode chegar a 682 pessoas em sua formatação com palco reduzido. A ideia é ter platéia e músicos bem próximos, criando a atmosfera de intimidade musical. Uma pequena arena de desenho super contemporâneo do genial Frank Gehry, batizada em homenagem ao compositor e regente francês Pierre Boulez, falecido em 2016.

© RAFAEL FONSECA


(1886) C. FRANCK Sonata para violino e piano

Sonate pour violon et piano

Compositor: César Franck
Número de catálogo: M 8
Data da composição: 1886
Estréia: 16 de dezembro de 1886 — Bruxelas, Musée Moderne de Peinture, Eugène Ysaÿe (violin), Marie-Léontine Bordes-Pène (piano)

Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: violino e piano

A semente foi plantada em 1858, quando Franck prometeu escrever uma Sonata para violino e piano a pedido de Cosima, filha do grande Liszt e à época esposa do renomado regente Hans von Bülow. Mas parece que o agrado à futura Senhora Wagner não motivou o coração do músico, e 28 anos se passaram até que finalmente Franck debruçou-se sobre a composição. Mas dessa vez a motivação de Franck — agora um experiente compositor com seus 63 amos — foi brindar um jovem colega; e foi assim que Eugène Ysaÿe recebeu a Sonata como seu presente de casamento.

Ysaÿe tocou, com a pianista Marie-Léontine, a peça pela primeira vez no Museu Moderno de Pintura (hoje o Museu Real de Belas Artes de Bruxelas). O programa daquela tarde era um pouco longo e a Sonata, peça principal, teria de ser cancelada, pois o fim de tarde estava avançando e as autoridades não queriam permitir acender a iluminação para não colocar em risco as obra de arte do recinto. Ysaÿe e Marie-Léontine decidiram tocar assim mesmo e a Sonata teve de ser executada de memória — pois já não era possível ler as partituras — até terminar em total escuridão, como relatou Vincent d'Indy, presente à ocasião.

Desse momento em diante, estava legado aos violinistas a mais bela e querida Sonata de todo o repertório. Franck, mesmo não sendo um compositor muito dedicado à música de câmara, construiu um monumento perfeito. Ela é a mais tocada e mais gravada das Sonatas para violino, e dela derivam inúmeras versões adaptadas, com transposição da parte do violino para violoncelo, viola, flauta, saxofone e até uma cafona versão cantada por coral.
  
I. Allegretto ben moderato
(Quase rápido, mas bem moderato) — cerca de 6 minutos
A peça se inicia com uma reflexão no violino que logo se transforma numa frase de exaltação, muito romântica, dividida entre violino e piano, de alta expressão romântica. O tema vai evoluindo nessa conversa entre a pergunta meditativa e a resposta derramada, lírica e poética. Os dois instrumentos se comunicam complementarmente, e nisso vê-se um pouco da influência das grandes Sonatas clássicas de Mozart e Beethoven, na dinâmica desse diálogo. 

II. Allegro
(Rápido) — cerca de 8 minutos
A atmosfera muda completamente com esse movimento rápido e turbulento, dando-nos a impressão que esta é a verdadeira frase de abertura da obra, e o movimento precedente fora sua introdução. Mais uma vez, na estruturação do diálogo, percebe-se a influência Clássica, mas a verve com que violino e piano entoam suas frases é Romântica na essência, num discurso cheio de emotividade e força. Um rápido episódio contrastante nos coloca de volta no caráter meditativo do movimento anterior, mas logo a música volta ao grandiloquente tom épico que é a tônica desse trecho.

III. Recitativo-Fantasia: Ben moderato — Largamente — Molto vivace
(Recitado, Fantasioso: Bem moderado — Lentamente — Muito vivaz) — cerca de 7 minutos
O piano faz uma introdução apreensiva, o violino responde sozinho, como num improviso (lembrando um pouco a Kreutzer de Beethoven). Tem então início uma conversa densa entre os instrumentos. É, do ponto-de-vista do material explorado e da maneira como essa evolução acontece, o movimento mais rico da Sonata. Aqui a estruturação é menos formal (não remetendo mais a um Classicismo como anteriormente) e as frases fluem com mais naturalidade e organicidade. Os temas são de inspiração sem igual, contemplativos e ao mesmo tempo muito introspectivos, e o manancial da tradição da canção francesa se manifesta aqui inequivocamente.

IV. Allegretto poco mosso
(Quase rápido, pouco movimentado) — cerca de 6 minutos
Franck deixa o tema mais fácil, mais querido, para construir este finale. Um tema de grande fluidez melódica (que remete um pouco a Schubert) que cativa a atenção do ouvinte desde as primeiras notas. Esse tema irá evoluindo em imitação canônica (um instrumento imitando o outro) até que temas dos movimentos anteriores — conferindo à obra um caráter cíclico — irão aparecer em citações que mostram ao ouvinte a conexão e derivação que existe entre eles. A melodia alegre de abertura desse movimento dará lugar ao tema reflexivo do primeiro movimento, logo voltando a dar lugar ao tema principal, o que dá ao movimento ares de rondò. Nesse sistema vai aparecer outra vez também o tema do segundo movimento, agora tocado de maneira mais leve, mas o rondò não se realiza, pois logo a conclusão da Sonata é alcançada, rapidamente e com genuína alegria.

© RAFAEL FONSECA


Cédric Tiberghien

Cédric Tiberghien

Noyon, França, 5 de maio de 1975

Iniciou seus estudos em sua cidade natal aos 5 anos com o professor Michèle Perrier. Depois ingressou no Conservatório de Paris onde graduou-se com o primeiro prêmio em 1992 com 17 anos. 

Tiberghien declara inspirar-se em grandes nomes do passado como Arthur Rubinstein, Artur Schnabel, Sviatoslav Richter e Emil Gilels. Seu estilo é profundo, denso, e faz mesmo lembrar a grandiosidade com a qual esses velhos mestres tocavam os ícones do repertório como Beethoven e Chopin. Tem especial predileção pela música de câmara e costuma ter como parceiros frequentes a violinista Alina Ibragimova, o violista Antoine Tamestit e o barítono Stéphane Degout. A crítica chama a atenção para a versatilidade de seu repertório, que vai das Partitas de Bach às peças de Bartók.

© RAFAEL FONSECA


Alina Ibragimova

Alina Rinatovna Ibragimova — translitarção de Али́на Рина́товна Ибраги́мова

Polevskoy, Rússia, 28 de setembro de 1985

Instrumento: Anselmo Bellosio, 1775

Nascida numa família musical, Alina começou a estudar o instrumento aos 4 anos de idade. De talento muito precoce, ela já estava tocando profissionalmente com apenas 6 anos de idade, inclusive com a Orquestra do Bolshoi. Em 1996 ela tinha 10 anos e seu pai Rinat Ibragimov foi contratado como contra-baixista da Sinfônica de Londres, e a família muda-se para a capital inglesa. Sua mãe foi lecionar em Surrey na Yehudi Menuhin School e a inscreveu lá como aluna de Natasha Boyarskaya.

Depois fez aperfeiçoamento com Gordan Nikolitch no Royal College of Music em Londres, e mais tarde com Christian Tetzlaff na Academia de Kronenberg, Alemanha. Sua carreira internacional ganhou impulso após ela ser premiada em 2002 num concurso da Sinfônica de Londres. O próximo passo foi apresentar-se tocando Mozart no Mozarteum de Salzburg com a Kremerata Baltica (orquestra de Gidon Kremer). Hoje está entre os mais conceituados solistas de sua geração.

© RAFAEL FONSECA

(1906) VIERNE Sonata para violino

Compositor: Louis Vierne
Número de catálogo: Opus 23
Data da composição: 1906
Estréia: 16 de maio de 1908 — Eugène Ysaÿe ao violino e Raoul Pugno ao piano

Duração: cerca de 35 minutos
Efetivo: violino e piano

Em 1900 Louis Vierne foi nomeado organista da Catedral de Notre Dame em Paris e permaneceu no posto até sua morte, em 1937. Essas quase quatro décadas como músico de órgão legaram um catálogo de muitas obras religiosas (a maioria delas para o órgão, inclusive as Sinfonias organísticas, e algumas corais), mas tal produção eclipsou o restante de seu repertório. Ele produziu 9 peças para piano, uma Sinfonia para orquestra e mais 3 obras concertantes, e mais 9 peças de câmara, dentre as quais vamos encontrar essa bela Sonata para violino e piano.

A obra surge da encomenda dos amigos Ysaÿe (grande violinista) e Pugno (pianista), e foram eles que apresentaram a obra pela primeira vez, em 1908. Vierne inspirou-se claramente na Sonata para violino e piano de César Franck, de 1886, obra-ícone da Sonata francesa no fim do século XIX.

São 4 movimentos:
I. Allegro risoluto (Rápido decididamente) — cerca de 6 minutos
II. Andante sostenuto (Passo de caminhada, sustentado) — cerca de 11 minutos
III. Intermezzo: Quasi vivace (Interlúdio: Quase vivaz) — cerca de 3 minutos
IV. Largamente — Allegro agitato (Bem lentamente — Rápido agitado) — cerca de 13 minutos

O primeiro movimento abre com eloquência. O movimento lento é bastante meditativo, e guarda dois episódios contrastantes de grande dramaticidade. O terceiro movimento é breve, bastante animado. E o finale abre com uma seção lenta e bastante questionadora, para depois mergulhar numa conclusão de forte intensidade.

© RAFAEL FONSECA

(1893) YSAŸE Poema Elegíaco

Poème élégiaque

Compositor: Eugène Ysaÿe
Número de catálogo: Opus 12
Data da composição: 1892/1893

Duração: cerca de 14 minutos
Efetivo: violino e piano; há uma versão do próprio autor para violino e orquestra, de 1903

O belga Eugène Ysaÿe foi um grande violinista, e era chamado por Nathan Milstein como o "rei do violino". Seu catálogo compreende 2 óperas, 6 peças sinfônicas e um bom n/umero de peças de câmara, a maioria dela para ou co violino.

Este Poema é um ponto de virada na criação do autor e foi inspirado na leitura de "Romeu e Julieta" de Shakespeare, dedicado ao amigo Gabriel Fauré. Esta obra irá ter influência no célebre Poème, que Chausson vai escrever para violino e orquestra em 1896.

Très modéré — Meno vivo e largamente — Grave et lent: Scene funèbre — Sans presser — Tempo I
(Bem moderado — Menos vivo e lentamente — Grave e lento: Cena fúnebre — Sem pressa — Volta ao tempo inicial) 

Não podemos fazer alusão às cenas da peça shakesperiana colocando-as em paralelo aos 5 andamentos descritos acima. Mas podemos identificar no caudaloso tema de abertura, no movimento lento que o segue, na cena fúnebre, certa paridade com a trágica e universal história de amor. Ysaÿe consegue condensar emoções com grande beleza e a voz do violino é explorada como se cantasse, num discurso de grande poder evocativo.

© RAFAEL FONSECA

Regula Mühlemann

Regula Mühlemann

Adligenswil, Cantão de Lucerna, Suíça, 7 de janeiro de 1986

Registro vocal: soprano

Ela estudou canto com Barbara Locher em Lucerna e formou-se pela Academia Musical de Lucerna em 2010. Após vencer em Genebra o "Prix Credit Suisse Jeune Soloist", logo ganhou os palcos mais importantes, começando em 2012 como Despina em "Così fan tutte" de Mozart no La Fenice em Veneza, e como Giannetta no "L'elisir d'Amore" de Donizetti no Festival de Baden-Baden. NO mesmo ano apareceu como Papagena na "Flauta Mágica" de Mozart no Festival de Salzburg. 

Dona de uma voz impressionante pela qualidade cristalina do timbre, pela coloratura leve, ágil e natural, ela esbanja graça e precisão raras.

© RAFAEL FONSECA

(1900) MAHLER Sinfonia n. 4

Compositor: Gustav Mahler
Número de catálogo: MW 4
Data da composição: 1892 (a Canção); de julho de 1899 a agosto de 1900
Estréia: 25 de novembro de 1901 — em Munique, Mahler regendo a Kaim Orchester (hoje a Fil. de Munique) com a soprano Margarete Michalek

Duração: cerca de 1 hora
Efetivo: 1 soprano solista (no finale);
Efetivo: 2 flautas-piccolo, 4 flautas, 3 oboés, 1 corne-inglês, 3 clarinetas, 1 clarineta-baixo, 3 fagotes, 1 contra-fagote, 4 trompas, 3 trompetes, tímpanos, guizos, pratos, triângulo, gongo, bumbo, glockenspiel, harpa, as cordas (primeiros- e segundos violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Mahler era fascinado pela coletânea de canções folclóricas germânicas "Des Knaben Wunderhorn: Alte deutsche Lieder" (A Trompa Maravilhosa do Menino: Antigas Canções Germânicas) reunidas por Achim von Arnim e Clemens Brentano, cuja primeira publicação se deu em 1805. Compôs inúmeras delas entre 1892 e 1901. Dentre estas, "Das himmlische Leben" (A Vida Celestial), uma visão infantil do céu paradisíaco.

Em suas três primeiras Sinfonias, Mahler desenhou a trajetória de um herói épico que nasce para o mundo injusto na Primeira (1888), confronta-se com a realidade da morte na Segunda (1894) e reflete sobre seu papel no mundo na Terceira (1896). Nessa última, a Terceira, ele chegou a planejar a inserção da Canção citada acima, mas por coincidências de temática (sobretudo no quinto movimento, que também faz uso de uma das canções da coletânea), acabou por guardando a Vida Celestial para servir-lhe de força motriz para a composição desta Quarta.

Então sabemos que Mahler parte da Canção para compor a Sinfonia, e que três movimentos sinfônicos servirão de prelúdio a esta quase-desconcertante finalização de uma obra deste porte. Se Mahler fora tão seriamente dramático nas três obras precedentes, aqui é como se, depois de abordadas as questões da infância tratadas com tanta auto-piedade, ele montasse seu teatrinho de marionetes e divertisse a platéia com uma visão jocosa, leve e irônica do mundo... do outro mundo!

I. Bedächtig, nicht eilen
(Prudentemente, sem acelerar) — cerca de 18 minutos
A orquestra começa como um realejo meio emperrado e... guizos? Sim, guizos. E você não está num anúncio da Coca-Cola de Natal. Nada mais desconcertante, nada mais inesperado. As cordas começam a desenhar a primeira melodia: poderia ser Haydn, ou Mozart. Ou mesmo Schubert, mas totalmente desprovido de sua peculiar melancolia. Uma valsinha? O andamento não é de valsa, mas remete a uma valsa, e o regente Willem Mengelberg, amigo de Mahler, em Amsterdam pedia aos músicos da Concertgebouw que "Por favor, toquem como se estivéssemos começando uma valsa, mas em Viena!". A orquestra, muito mais leve que em qualquer outra Sinfonia do autor — prescinde de trombones ou tuba e é bem reduzida numericamente — conduz esse cenário naïve de uma harmonia infantil e graciosa. Um detalhe curioso a ser notado, e Mahler sempre tem dessas surpresas: nos episódios contrastantes, uns poucos momentos de apreensão nessa partitura tão leve, um chamado de trompete causa espanto a quem já conhece melhor a obra do mestre, pois é exatamente o chamado que inicia a Marcha Fúnebre, o início da Quinta Sinfonia! É como se nesse cenário infantil de reflexões vertiginosas a semente da próxima Sinfonia fosse plantada! É Mahler ligando uma obra à outra, antecipando-se, e criando até a ideia que muitos defendem do caráter premonitório de sua obra.

II. In gemächlicher Bewegung, ohne Hast
(Relaxadamente movimentado, sem pressa) — cerca de 9 minutos
"A morte rege o baile", disse o próprio Mahler a respeito do início desse segundo movimento, cujo ar macabro — ainda que, no todo, mantenha-se a atmosfera jocosa da Sinfonia — é conferido pelo violino  do spalla afinado um tom mais alto, criando a sensação de deslocamento. Logo temos de volta a visão infantil do Paraíso. Mahler cria efeitos magistrais, e é tocante o momento, no meio do movimento, no qual a música se ilumina, pintando um facho solar na penumbra, a luz no fim do túnel. Esse movimento faz as vezes de Scherzo, e traz inúmeras sonoridades que remetem ao grotesco, numa dança desajeitada.

III. Ruhevoll, poco adagio
(Tranquilamente, como que com calma) — cerca de 22 minutos
Sinfonicamente, esse é o ápice dessa Sinfonia, embora dramaticamente tudo se resolva na Canção do movimento seguinte. Mas é aqui que o autor atinge o cume da montanha. Que beleza dilacerante! Que extraordinária retórica musical, num discurso que nos envolve tão maravilhosamente. É nesse Adagio, o movimento lento da obra, que descobrimos que os movimentos precedentes não eram senão máscaras para a legítima dor da existência desse autor tão visceral. Inicia-se como uma Canção de ninar, com generosas frases aos violoncelos, em caudalosa melodia. Nas seções centrais, episódios contrastantes que resgatam a ironia e o esgar presentes nos movimentos anteriores. Mas no todo, um idílio de uma alma rumo ao encontro de si mesma, da busca de todos nós por respostas impossíveis, dúvidas latentes que levaremos todos ao túmulo, mas que Mahler magistralmente resolverá com a Canção-finale do quarto e último movimento.

IV. Sehr behaglich: Lied "Das himmlische Leben"
(Muito confortavelmente: Canção "A Vida Celestial") — cerca de 10 minutos
Ainda hoje, passado mais de um século da estreia dessa obra, algumas plateias se ressentem desse desconcertante final, se levarmos em consideração que a obra não termina grande (o ápice, vale lembrar, acabara de acontecer no terço final do movimento anterior), mas termina calma, quase num anti-clímax. Aqui, finalmente entra em cena a Canção que gerou a Sinfonia como um todo. Uma criança — e Mahler pede uma cantora que tenha "uma expressão de alegria infantil", e alguns maestros optam até mesmo por colocar um menino-soprano — nos desvenda a visão do Paraíso, o banquete celestial e a "música sem igual". Vamos ao texto:

© RAFAEL FONSECA 

Wir genießen die himmlischen Freuden,
Drum tun wir das Irdische meiden,
Kein weltlich Getümmel
Hört man nicht im Himmel!
Lebt alles in sanftester Ruh'!
Wir führen ein englisches Leben!
Sind dennoch ganz lustig daneben!
Wir tanzen und springen,
Wir hüpfen und singen!
Sankt Peter im Himmel sieht zu!

Vivendo em gozos celestes,
Evitamos os terrestres.
O mundano escarcéu
Não se ouve aqui no céu!
Doce paz em tudo incide!
Vida de anjo não afasta
Nossa alegria a mais vasta!
Bailamos tanto e saltamos,
Pulamos tanto e cantamos!
No céu São Pedro preside!

Johannes das Lämmlein auslasset,
Der Metzger Herodes drauf passet!
Wir führen ein geduldig's,
Unschuldig's, geduldig's,
Ein liebliches Lämmlein zu Tod!
Sankt Lucas den Ochsen tät schlachten
Ohn' einig's Bedenken und Achten,
Der Wein kost' kein Heller
Im himmlischen Keller,
Die Englein, die backen das Brot.

São João solta seu cordeiro,
Pega-o Herodes o açougueiro!
Conduzimos esse manso,
Esse inocente tão manso,
Cordeirinho ao facão!
São Lucas abate os bois
Sem um remorso depois.
Vinho não custa um vintém
Aqui no céu, no armazém,
Os anjos assam o pão.

Gut' Kräuter von allerhand Arten,
Die wachsen im himmlischen Garten!
Gut' Spargel, Fisolen
Und was wir nur wollen!
Ganze Schüsseln voll sind uns bereit!
Gut Äpfel, gut' Birn' und gut' Trauben!
Die Gärtner, die alles erlauben!
Willst Rehbock, willst Hasen,
Auf offener Straßen
Sie laufen herbei!

Muita e da boa verdura
Na horta do céu tem fartura!
Feijão e aspargos, primícias
Das que quisermos delícias!
Pra nós só há prato cheio!
Boas maçãs, uvas, peras!
Deixam comer o que queiras!
Queres lebre ou outra caça?
Uma trás outra aqui passa
Andando no nosso meio.

Sollt' ein Fasttag etwa kommen,
Alle Fische gleich mit Freuden angeschwommen!
Dort läuft schon Sankt Peter
Mit Netz und mit Köder
Zum himmlischen Weiher hinein.
Sankt Martha die Köchin muß sein.

Se de abstinência é o dia,
Vêm os peixes com alegria!
Vem São Pedro -- rede e isca,
Muito peixe já belisca
E essa pescaria farta
Deve cozer Santa Marta.

Kein' Musik ist ja nicht auf Erden,
Die uns'rer verglichen kann werden.
Elftausend Jungfrauen
Zu tanzen sich trauen!
Sankt Ursula selbst dazu lacht!
Cäcilia mit ihren Verwandten
Sind treffliche Hofmusikanten!
Die englischen Stimmen
Ermuntern die Sinnen,
Daß alles für Freuden erwacht.

Não há música que possa,
Na Terra, igualar-se a nossa.
Onze milhares de virgens
Dançando de dar vertigens!
Santa Úrsula até se ria
Cecília com seus parentes
Formam orquestra excelente!
De cada anjo a voz bela
O nosso enlevo revela
Tudo acorda pra alegria.

Tradução:
© NAPOLEÃO LAUREANO DE ANDREADE

Isabelle Faust

Isabelle Faust

Esslingen am Neckar, Alemanha, 19 de março de 1972

Instrumento: Stradivarius "Bella Addormentata", 1704

Embora, como muitos solistas de renome, ela tenha começado cedo, aos 5 anos, o início desse estudo de violino é peculiar: seu pai, um professor secundário, à época na casa dos 30 anos, resolvera estudar violino, e levava a filha a acompanhá-lo nas aulas. Ele não demonstrou mais que uma habilidade mediana no instrumento, enquanto que Isabelle, mais e mais, mostrava-se apta a manusear, com incrível talento, o violino.

Em 1987, com 15 amos, ganhou o primeiro lugar no Concurso Leopold Mozart em Augsburg. Dentre outras importantes premiações, em 1993, outra medalha de ouro, agora no Concurso Paganini, em Gênova. Ela despontou na década de 1990 com uma técnica impressionante, e além de abordar o repertório Romântico tradicional, tem especial predileção pela música do Século XX.

Em 2012 sua gravação das Sonatas para violino e piano de Beethoven com Alexander Melnikov recebeu aclamação de melhor gravação camerística da Revista inglesa Grammophone, da Revista francesa Diapason d"Or, e do Prêmio alemão Echo Klassik. Em 2016 o New York Times apontou sua gravação dos Concertos para violino de Mozart como a melhor do ano.

© RAFAEL FONSECA

(1935) BERG Concerto para violino "Em memória de um anjo"

Violinkonzert "Dem Andenken eines Engels"

Compositor: Alban Berg
Data da composição: de abril a 11 de agosto de 1935
Estréia: 19 de abril de 1936 — Barcelona, no Palau de la Música Catalana, Louis Krasner (violino) e Hermann Scherchen (regência)

Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: violino solista;
Efetivo: 1 flauta-piccolo, 2 flautas, 2 oboés, 1 corne-inglês, 3 clarinetas, 1 clarineta-baixo, 1 saxofone-contralto, 2 fagotes, 1 contra-fagote, 4 trompas, 2 trompete, 2 trombones, 1 tuba-contra-baixo, tímpano, bumbo, pratos, caixa-clara, gongo chinês, gongo, triângulo, harpa e as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

No início de 1935 Berg recebe do violinista Louis Krasner a encomenda de um Concerto para estrear no Festival de Música Contemporânea que aconteceria no ano seguinte em Barcelona. Envolvido com a produção de sua ópera "Lulu", Berg titubeou em aceitar a encomenda. Mas a morte prematura de Manon Gropius, filha de sua dileta amiga Alma Mahler e do arquiteto Walter Gropius, mobilizou o compositor a homenagear a jovem que se despedira da vida aos 18 anos, vítima de paralisia-infantil.

A obra, que deveria ser o Réquiem para Manon, acaba por ter sido o Réquiem para o próprio Berg, que morreu em 24 de dezembro de 1935 com 50 anos, deixando sua "Lulu" incompleta. De fato, sua obra derradeira acabou por ser este Concerto para violino, que ele não viveu o suficiente para vê-lo apresentado por Krasner (o autor da encomenda) em Barcelona em 1936.

A estrutura da composição é bipartida mas uma subdivisão que lhe confere 4 movimentos em duas partes:

I. Andante – Allegretto
(Passo de caminhada — Sem arrastar) — cerca de 12 minutos
A primeira parte, o Andante, é um Prelúdio melancólico, no qual o violino entra titubeante, como quem procura se encaixar o espaço, enquanto a orquestra constrói o cenário desse céu do qual a personagem — se admitimos que o violino é o anjo, é Manon — observa o mundo recém-abandonado. É nesta obra, pela primeira vez, que Berg utiliza-se do dodecafonismo de Schönberg, e tal sistema ajuda no impacto da reflexão de um tema tão duro, a morte na juventude.

A segunda parte, o Allegretto, é quase um Scherzo mahleriano, abrindo-nos o abismo da morte, trazendo a força da catástrofe, com uma pequena seção contrastante que faz uso de uma canção infantil (inspiração que remete diretamente a Mahler), terminando em angústia destroçada.

II. Allegro, ma sempre rubato, frei wie eine Kadenz – Adagio
(Rápido, mas sempre roubando tempo, livre como uma cadenza — Com calma) — cerca de 18 minutos
O Segundo movimento abre com um Allegro que provoca choque, talvez aqui a morte vista pelas dores dos que ficam. A parte final, um Adagio, faz citação direta do tema principal da Cantata n. 60 de Bach, que em seu original teria um coral cantando "Ó eternidade, palavra retumbante / Ó espada que atravessa a alma  / Ó princípio sem fim  / Ó eternidade, tempo sem tempo. / De tanta tristeza, / Não sei a quem recorrer. / Meu coração assustado treme tanto / Que minha língua se cola ao céu da boca". No final, a orquestra constrói um acorde dentro da tonalidade (que a obra toda nega com seu dodecafonismo) enquanto o som do violino, numa busca de uma nota super aguda, dissolve em direção ao céu...

© RAFAEL FONSECA