(1947) STRAVINSKY Balé "Orfeu"

Orpheus, Ballet in three Scenes

Compositor: Igor Stravinsky
Data da composição: 1947 a 1948
Estréia: 28 de abril de 1948 — em Nova York, no City Center of Music and Drama, regência do autor

Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: 1 flauta-piccolo, 2 flautas, 2 oboés, 1 corne-inglês, 2 clarinetas, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, 2 trombones, 1 trombone-baixo, tímpanos, harpa, um quinteto de cordas (primeiro- e segundo-violino, viola, violoncelo e contra-baixo) — podendo ser o quinteto ampliado ao naipe de cordas

O Orfeu de Stravinsky consiste em 12 números distribuídos em 3 cenas: isso para quem for assistir à apresentação dançada; para a apreciação em concerto, trata-se de cerca de meia hora ininterrupta de música. Stravinsky trabalhou no tema a pedido de Lincoln Kirstein, que coordenava a recém-fundada Ballet Society junto com Balanchine. É uma obra bastante peculiar pois o autor da emblemática e revolucionária Sagração da Primavera volta, aqui, os olhos à mitologia, dá ao todo um certo colorido neo-clássico, e até remete às sonoridades da música medieval (que ele vinha estudando), mas mantém-se extremamente contemporâneo ao século XX. Não há figurações representativas — como a armadilha quase inevitável de se usar a harpa como a lira de Orfeu — e tudo é sugerido de maneira tênue e envolvente. Na sua placidez dolorida, a violência emocional da morte de Eurídice é exposta sem arroubos.

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(1854) LISZT Poema Sinfônico "Orfeu"

Orpheus, symphonische Dichtung

Compositor: Franz Liszt
Número nos catálogos: LW G-9 / S 98
Data da composição: 1853 a 1854
Estréia: 16 de fevereiro de 1854 — em Weimar, no Hoftheater (hoje Nationaltheater), regência do autor

Duração: cerca de 12 minutos
Efetivo: 1 flauta-piccolo, 3 flautas, 2 oboés, 2 clarinetas, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, 1 tuba, tímpanos, 2 harpas, as cordas (primeiros- e segundos-violinos, violas, violoncelos e contra-baixos)

Liszt é o criador do termo "Poema Sinfônico" e este é o quarto dos 12 que ele escreveu. A inspiração veio da ópera "Orfeu e Eurídice" de Gluck, que Liszt, como o maestro-de-capela da Corte de Weimar, iria dirigir na temporada de 1854. Em atitude ousada e de grande inspiração, tocou sua peça antes mesmo da abertura da icônica ópera (escrita por Gluck em 1762, quase um século antes). Ao contrário de muitas de suas músicas de programa — toda obra musical que tem por trás um significado gerador, em geral vindo da literatura — este Orfeu é mais uma impressão sensorial do "primeiro poeta-músico" que propriamente uma descrição musical resumida do enredo de sua história.

Andante moderato – Un poco più di moto – Lento — Andante con moto — Lento
(Passo de caminhada moderado — Um pouco mais de movimento — Lento — Passo de caminhada, com movimento — Lento)

Desde os primeiros acordes nos surpreendemos com a semelhança com o estilo que Wagner, futuro genro de Liszt, ainda iria impor com obras lendárias como Parsifal ou Tristão e Isolda. E não por acaso Wagner tinha nesse Orfeu sua obra orquestral preferida no repertório do mestre e depois sogro. As harpas, simbolizando a lira de Orfeu, desempenham papel fundamental.

Dos 12 Poemas Sinfônicos do autor, esse é o mais curto em duração e o mais conciso na temática. Não aparece nenhum segundo tema ou contra-tema: apenas um, suave, lírio, aquele que Liszt, postado diante de um jarro etrusco no Louvre que retratava Orfeu, concebeu como sendo o canto civilizador, do herói que conduz a humanidade à idade moderna. 

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Thomas Hampson

Thomas Walter Hampson
  
Elkhart, Indiana, Estados Unidos, 28 de junho de 1955
  
Registro vocal: barítono

Hampson era mais voltado à política e só começa a estudar canto mais seriamente em 1978, já com 23 anos, quando vence o Concurso "Lotte Lehmann". Inscreve-se na Universidade da Califórnia e em 1980 consegue um posto na Ópera de San Francisco. Lá conhece a lendária Elisabeth Schwarzkopf, que será sua tutora e vai declarar ser dele a voz mais bela daquele momento. Isso assim, dito quando o barítono Dietrich Fischer-Dieskau ainda estava em atividades, é um elogio gigantesco. 

Os papéis mais disputados se sucederam, nos mais importantes palcos do mundo. Com Leonard Bernstein realizou gravações antológicas das Canções de Mahler. Dono de uma voz incrivelmente bela, timbre perfeito, isso junto a uma figura que, segundo a People Magazine em 1993, era uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo...

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Paavo Järvi

Paavo Järvi

Talin, Estônia, 30 de dezembro de 1962

Paavo é filho do renomado regente Neeme Järvi, e tem dois irmãos musicistas: Kristjan é pianista e também regente; e Maarika é flautista. Iniciou seus estudos na Academia de Música de Talina e quando tinha 17 anos, seu pai mudou-se com a família para os Estados Unidos, inscrevendo-o no Curtis Institute (na Filadélfia). Mais tarde foi aluno de Leonard Bernstein em Los Angeles. 

Seu primeiro posto como regente principal foi na Sinfônica da cidade de Malmo (Suécia) de 1994 a 1997. Logo acumulou o cargo como regente-principal na Filarmônica Real de Estocolmo, onde esteve de 1995 a 1998. De 2001 a 2011 foi o diretor da Orquestra de Cincinnati. Desde 2004 é também o diretor do Festival da Estônia. Nesse meio tempo foi diretor da Orquestra da Rádio de Frankfurt de 2006 a 2014, e da Orquestra de Paris de 2010 a 2016.

Mas seu grande feito começou a aparecer quando ele assumiu, em 2004, a Orquestra Filarmônica de Câmara de Bremen, a qual ainda dirige: lá ele conseguiu desenvolver uma sonoridade firme e pulsante, gravando um ciclo Beethoven que revolucionou a maneira de escutar o grande compositor, aliando o poder sonoro da orquestra moderna, às descobertas de articulação e ritmo da escola de instrumentos antigos. O resultado é impressionante.

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Scala

Nuovo Regio Ducal Teatro
Teatro alla Scala a Milano
La Scala

2.030 lugares

Inauguração: 3 de agosto de 1778
Local: Via Filodrammatici 2, Milano, Itália
Projeto: Giuseppe Piermarini

Vamos aos primórdios, e ao jocoso nome de "teatro da escada". Em 1381, no local onde hoje está o mais famoso palco de óperas do mundo, terminava-se a construção de uma igreja gótica mandada construir pela esposa do Signore de Milão, Bernabò Visconti. Ela era Beatrice Regina della Scala, de nobre família de Doges venezianos. Por isso a Igreja foi apelidada de Santa Maria alla Scala. Essa igreja foi demolida em 1776 a mando da Imperatriz Maria Tereza de Áustria, para dar lugar a uma nova casa de óperas, depois do incêndio que destruiu o Teatro Regio Ducale, que havia sido consumido pelo fogo. Pronta a bela edificação em 1778, o povo deu ao teatro o apelido com o qual se habituara a chamar a igreja: alla Scala.

A noite de inauguração se deu com pompa, a 3 de agosto de 1778, com a presença do Arquiduque Fernando Carlos de Áustria-Este, regente do Ducado de Milão, e uma produção especial para a ocasião: a ópera "Europa Reconhecida" de Antonio Salieri, que ali estreou regida pelo próprio compositor.

A primeira formatação da casa chegava a abrigar cerca de 3.000 espectadores. Uma renovação em 1907 dotou o espaço com cadeiras fixas e a capacidade caiu para 1.987 lugares. Após as sérias danificações feitas por bombardeios na Segunda Guerra, o Scala foi novamente reformado, re-abrindo em 11 de maio de 1946 em concerto conduzido por seu diretor da época, ninguém menos que ARturo Toscanini, e uma estrela do canto lírico, a soprano Renata Tebaldi. Recentemente, nova renovação (e readequação dos espaços, que hoje abrigam 2.030 pessoas) e re-aberura a 7 de dezembro de 2004, novamente com a "Europa Reconhecida" de Salieri, dessa vez com regência do então diretor da casa, Riccardo Muti.

Famoso pela acústica, figura nas publicações especializadas como a número um nesse quesito para casa de ópera, e todo o mundo. Ali estrearam a "Norma" de Bellini em 1831, o "Nabucco" de Verdi em 1842, o "Mefistofele" de Boïto em 1868, o "Guarany" de Carlos Gomes em 1870, a "Turandot" de Puccini em 1926, dentre inúmeros outros títulos importantíssimos.

Pela direção da casa passaram ícones como Toscanini, Tullio Serafin, Victor De Sabata, Carlo Maria Giulini, Guido Cantelli, Claudio Abbado, Riccardo Muti, e Daniel Baremnboim. Atualmente, a gestão é do maestro Riccardo Chailly.

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Myung-whun Chung

정명훈
Jeong Myeonghun (romanização exata)

Seoul, Coréia do Sul, 22 de janeiro de 1953

Chung foi aluno de Oliver Messian. Com suas irmãs, a violinista Kyung-wha Chung e a violoncelista Myung-wha Chung, ele mantém o Chung Trio, no qual atua como pianista. Aliás, foi como pianista que ele surgiu, sendo o segundo colocado em 1974 no disputadíssimo Concurso Tchaikovsky em Moscou (o primeiro colocado fora Andrei Gavrilov). De 1978 a 1984 ele foi asistente de Carlo Maria Giulini na Filarmônica de Los Angeles. De 1987 a 1992 dirigiu o Teatro Comulnale de Florença; e de 1989 a 1994 diretor da Ópera de Paris. 

Ajudou a fundar a Filarmônica da Ásia, orquestra da qual é o diretor. Dirige desde 2000 a Filarmônica da Rádio da França, desde 2005 o regente-principal da Filarmônica de Seoul e desde 2012 o principal regente-convidado da Staatskapelle de Dresden.

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Cameron Carpenter

Taylor Cameron Carpenter

Pennsylvania, 18 de abril de 1981

Aos 11 anos já era capaz de tocar o Cravo Bem Temperado de Bach! A partir de 2000 Cameron estudou na Juilliard em Nova York. Apesar de não ser religioso, foi organista da Middle Collegiate Church do East Village em Nova York. Em 2008 lançou seu primeiro CD pela Telarc e sua adaptação do Estudo Revolucionário de Chopin fez dele o primeiro organista a ser indicado ao Grammy. 

Figura polêmica, de ares mais afeitos a um pop-star que um músico erudito, roupas chamativas e cabelo armado, em 2014 foi preso e deportado no aeroporto de Birmingham, quando ia dar um recital no Symphony Hall da cidade — o que levou a Casa dos Lordes a questionar os procedimentos da polícia da Fronteira e abrir uma sindicância. 

Suas interpretações também não são nada ortodoxas, tomando liberdades expressivas em peças-ícone do repertório como em Bach. Ele mesmo se intitula um "virtuoso composer-performer". Desde 2010 vive em Berlim e é o principal organista da Filarmônica de Berlim. É, pelo talento, ousadia e coragem, o mais interessante organista de nossos dias.

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Adrian Eröd

Erőd Adrián

Viena, 1970

Registro vocal: barítono

Adrian é filho do compositor húngaro Iván Eröd. Estudou na Universidade de Artes em Viena, onde foi aluno de Walter Berry. Seu primeiro contrato foi no Landestheater de LInz, mas logo em 2003 ele passou a integrar o elenco fixo da Ópera de Viena, onde desempenhou importantes papéis como o Papageno da "Flauta Mágica", o Figaro do "Barbeiro de Sevilha" e o Marcello de "La Bohème" entre tantos outros, sempre com muito sucesso e muito carinho do público vienense.

Participou de montagens em Festivais, como Bayreuth onde cantou como Sixtus Beckmesser na montagem de "Os Mestres Cantores" regida por Christian Thielemann. Em paralelo às óperas, cantou na Paixão Segundo Mateus sob a batuta de Nikolaus Harnoncourt, cantou na Carmina Burana regido por Fabio Luisi, e no Elias de Mendelssohn com Marek Janowski.

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(1842) SCHUMANN Quinteto com piano

Compositor: Robert Schumann
Número de catálogo: Opus 44
Data da composição: 1842
Estréias: 6 de dezembro de 1842 — na casa dos Schumann em Leipzig, Felix Mendelssohn ao piano com o Quarteto de Ferdinand David 
Estréias: 8 de janeiro de 1843 — na Gewandhaus, em Leipzig, Clara Schumann ao piano com o Quarteto de Ferdinand David (o spalla da Gewandhaus na época)

Duração: cerca de 30 minutos
Efetivo: piano; quarteto de cordas: 2 violinos, 1 viola, 1 violoncelo

Schumann terminara sua Primeira Sinfonia, intitulada Primavera, em 1841 e o ano seguinte foi em sua maior parte dedicado à música de câmara. Num espaço de 9 meses ele produziu três Quartetos de cordas (dedicados ao amigo Mendelssohn), um Trio, um Quarteto e um Quinteto, todos com piano, além de muitas canções. Clara, sua esposa, pianista de enorme talento, estava sempre presente. Ela é quem iria tocar a estréia privada da obra, em casa, mas sentiu-se mal (estava grávida) e foi Mendelssohn quem a substituiu no último momento. Clara era o centro da obra do marido. Fosse fisicamente, a seu lado, fosse espiritualmente, em música; Clara, a musa. 

Curiosamente, a ideia de combinar um piano ao Quarteto de cordas pode parecer naturalíssima, mas... até aquele momento ninguém o havia feito. Este será o primeiro. São 4 os movimentos:

I. Allegro brillante (Rápido e brilhante) — cerca de 9 minutos
A obra inicia de maneira otimista, altiva. Lembrando um pouco os Quartetos com piano de Mozart. As melodias ternas tão típicas de Schumann logo aparecem, apresentadas pelo piano e repetidas pelo quarteto. Uma frase cheia de amor e romance surge no violoncelo, embasada pela viola. No Quarteto com piano que ele vai escrever logo depois ele também coloca o violoncelo nessa posição, como se fosse esse instrumento sia própria voz, em devoção ao piano, instrumento naturalmente líder numa formação como esta, e que no caso era pensado para ser tocado por Clara. O entrelace entre os 5 instrumentos, no desenvolvimento da peça, é magistral. O movimento termina .

II. In modo d'una marcia: Un poco largamente (Como uma marcha: Quase vagarosamente) — cerca de 9 minutos
De atmosfera sombria, quase uma marcha fúnebre, este movimento certamente tem a ver com o momento doméstico naqueles dias de 1842. Grávida da segunda filha, Clara se viu obrigada a sair em turnê ao exterior, enquanto Schumann ficara em casa remoendo sobre o sucesso (e o dinheiro) que ainda não lhe chegava, dependendo da esposa (no século XIX, pensem nisso) para manter a casa. Será que sua admiração aqui não se mistura a um certo rancor? Numa das vezes que esta peça estava programada para ser apresentada por Clara, nas muitas que ela tocou, Schumann teria dito que "um homem entenderia melhor a obra". 

III. Scherzo: Molto vivace (Jogo: Muito vivaz) — cerca de 4 minutos
Como quem sacode a poeira das dores do movimento anterior, este Scherzo é cheio de alegria e juventude, com dois episódios contrastantes no meio. No primeiro deles, muito lírico e poético, é o violino que assume a melodia, enquanto o piano borda uma base delicada. No segundo, agiatado e efervescente, o piano brinca com as cordas em pizzicato (beliscadas sem o uso do arco). Há um quê de Beethoven no ar.

IV. Allegro ma non troppo (Rápido mas não muito) — cerca de 7 minutos
O finale é grandioso, intrincado, rico em ideias, combinando lirismo, força, inventividade. Lembra, um pouco, os finales camerísticos mozartianos, mas com a dosagem certa de verve romântica, explorando as potencialidades dos instrumentos, ora dos 5 individuamentem ora da combinação de piano e quarteto. Perto da conclusão, uma fuga à la Bach, de grande impacto mas cujo arremate é puro Schumann, sem dever nada a ninguém. 

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(1824) SCHUBERT Octeto

Compositor: Franz Schubert
Número de catálogo: D 803
Data da composição: fevereiro e março de 1824

Estréias: 16 de abril de 1824 — em Viena, na residência do conde Troyer, com este na clarienta, Ignaz Schuppanzigh no violino e outros membros da orquestra do Conde Rasumovsky;
Estréias: 16 de abril de 1827 — em Viena, no Café Zum Roten Igel em concerto da Sociedade Musical, com Ignaz Schuppanzigh e Carl Holz (violinos), Franz Weiss (viola), Joseph Linke (violoncelo), Josef Melzer (contra-baixo), Goerg Klein (clarineta), August Mittag (fagote) e Friedrich Hradeszky (trompa)

Duração: cerca de 55 minutos
Efetivo: 1 clarineta, 1 fagote, 1 trompa, 2 violinos, 1 viola, 1 violoncelo e 1 contra-baixo

Estamos em Viena, em 1824. Beethoven está prestes a concluir sua Nona Sinfonia. Duas coisas irritavam a frágil paciência do mestre naqueles dias: o sucesso das óperas de Rossini e um sucesso seu, o Septeto. Obra de 1800, escrita num período no qual seu estilo ainda prestava favores às elegâncias do Classicismo, o Sepeto era muito tocado em Viena, pelos gracejos agradáveis contidos na partitura, e por reunir um bom número de músicos (7, evidentemente) sem demandar o dispendioso contrato de uma orquestra, para se tocar uma Sinfonia, por exemplo.

O Conde Ferdinand Troyer era um dos principais nobres a serviço do Arquiduque Rodolfo, o irmão mais jovem do Imperador e grande patrono de música. Troyer era conhecido por tocar muito bem a clarineta. Com pouca literatura de câmara para o instrumento, Troyer queria outra peça para apresentar junto ao Spteto quando fosse tocá-lo. E fez a encomenda a Schubert, de uma obra em tudo similar à de Beethoven: na estrutura e na instrumentação. E assim, no espaço de cerca de um mês, Schubert o fez, adicionando um segundo-violino e criando seu Octeto.

São 6 movimentos:

I. Adagio — Allegro — Più allegro (Com calma — Rápiudo — Mais rápido) — cerca de 15 minutos
Eram tempos sombrios para Schubert, administrando sua recém-descoberta sífilis e com a certeza da proximidade da morte pela doença. Schubert tinha 27 anos e morreria 4 anos depois. Certa melancolia, tão natural na música do compositor, está aqui presente. O movimento inicial é pleno de lirismo e força.

II. Adagio (Com calma) — cerca de 12 minutos
O segundo movimento traz um estupendo solo de clarineta — afinal, estava-se atendendo a uma encomenda a alguém que tocava este instrumento! — e tem ares de prece, sendo que algumas passagens podem remeter ao acompanhamento na Ave Maria que Schubert criou em cima de um prelúdio de Bach.

III. Allegro vivace (Rápido e vivo) — cerca de 7 minutos
O terceiro movimento é um Scherzo, um tipo de música em voga na época desde seu uso nas Sinfonias imposto por Beethoven; uma frase fresca e muito graciosa.

IV. Andante mit variationen — Un poco più mosso – Più lento (Confortavelmente, e com variações — Um pouco mais movimentado — Mais lento) — cerca de 12 minutos
O Andante, quarto movimento, contém 7 deliciosas variações de um tema que Schubert havia empregado em sua ópera de 1815, Os Amigos de Salamanca (que permaneceu desconhecida até 1918!). A liderança é entregue ao violino principal e à clarineta.

V. Menuetto: Allegretto (Passo miúdo: Sem arrastar) — cerca de 7 minutos
Curiosamente, após empregar o Scherzo no terceiro movimento, no quinto ele traz um Minueto, justamente a dança que havia perdido lugar para os Scherzo, empregando nele toda a graça, remetendo aos célebres Minuetos de Haydn e Mozart que décadas antes embalavam Viena.

VI. Andante molto — Allegro — Andante molto — Allegro molto (Muito confortavelmente — Rápido — Muito confortavelmente — Muito rápido) — cerca de 10 minutos
O finale surpreende por sua dramaticidade.É o mais Romântico dos 6 movimentos. E também o mais robusto: se todos os movimentos anteriores eram pura música de câmara, este é mais encorpado, soa como trecho de uma Sinfonia — é mais sinfônico. Um movimento que conclui com exuberância e força uma peça longa (para os padrões de música de câmara da época) e que soa avançado, talvez um tributo ao ídolo Beethoven, não o do Septeto que a encomenda queria encontrar, mas o autor maduro e denso que os ouvidos daqueles dias ainda estavam buscando compreender.

© RAFAEL FONSECA